Desde o começo, num lugar escondido do seu cérebro, Marcos sempre soube que Ulisses era um vampiro. É claro que os hábitos noturnos podiam ser atribuídos às suas tendências à boemia, e sua atitude evitativa em relação às igrejas da cidade não era nenhum crime, mesmo que isso lhe ganhasse os olhares reprovadores dos mais velhos.
Para uma mente mais fértil, as invencionices do interior de Pernambuco com certeza suscitariam suspeitas de que um vizinho estranho possa ser um bicho do mato, um Corpo-seco, mas Marcos, cético professor, entendia bem o bastante das coisas para saber que nada disso significava algo que confirmasse as crendices. O mesmo servia para a fria temperatura das extremidades do corpo de Ulisses, bem como seus dentes incisivos anormalmente apontados. Até mesmo o tom pálido que a pele parda do homem tomava de meses em meses era uma peculiaridade que Marcos podia engavetar nas dobras de seu cérebro sem nenhuma reação maior que um estranhamento curioso.
Difícil de ignorar de verdade foi o encontro de seus olhos com os de Ulisses quando este, com a boca manchada de sangue, saltou como um gato assustado para longe de um corpo de aparência drenada, em direção ao matagal e lá sumindo. Fitando com os olhos vidrados a forma caída como folha murcha, Marcos reconhece o cadáver de Seu Abel, o bicheiro, estirado entre a estrada e a floresta. Era a noite depois do São João e a cidade de Triunfo dormia saciada. Naquela fatídica noite, Marcos não dormiu. E nem nas noites que a sucederam. A reminiscência dos olhos de Ulisses encontrando os seus fazia sentir o corpo frio, como o do bicheiro assassinado. Tornou-se assustado e silencioso, tomado por um terror que não lhe permitia contar aos seus entes queridos, o velho pai e os amigos, o que vira. No colégio do centro, seus colegas de trabalho e seus alunos não reconheceram o mestre transformado. Tanto que antes do final daquela semana, o professor foi dispensado sob licença médica, para que se renove no repouso. Mas o repouso não lhe trouxe consolo.
O corpo desidratado do bicheiro não foi encontrado pelos que passaram por aquela estrada afastada. Aquele limiar entre o asfalto e o mato ficou vazio sem um corpo distorcido repousado ali, fazendo tudo parecer um surto, um tipo de sonho macabro. Os filhos, a esposa e as amantes procuraram o bicheiro de meia-idade por todo lugar, mas ninguém o viu outra vez depois da bebedeira pós-São João. Um luto inquieto se espalhou na cidade. Ulisses, que já existia apenas para os conhecedores das noites de Triunfo como Marcos, não se via mais em lugar algum, por um tempo. Os conhecedores, sentindo a falta do homem engraçado de longos cabelos cacheados, chegaram a fazer perguntas a Marcos, mas ele não disse nada. Talvez ainda soubesse mais ou menos onde ficava o lar da figura, mas não chegaria perto daquele casarão velho outra vez.
Se as coisas forem como dizem que são e os vampiros fizerem o que dizem que eles fazem, então sua casa, enfeitada pelas mandingas sincréticas do senhor seu pai, seria um lugar seguro da influência do bicho. Mas esse excesso de traquitanas tornava toda a casa mais apertada, uma pequena prisão santa, que não podia lhe proteger além da porta. Restava então definhar nas sombras e nos sons alarmantes que se criam dentro de uma cabeça transtornada? Da cama de solteiro da qual pouco se levantava desde sua dispensa há quatro dias atrás, Marcos tentava segurar nas suas mãos ásperas o destino arenoso que lhe fora entregue. O pavor de dez dias antes ainda entorpecia seus membros e fazia arrepiar sua pele cor de doce-de-leite. Com as horas passando, o luto e a incerteza transformam esse medo, que passa de um peso imobilizante para uma nuvem de nefastas sugestões: o quão salvo realmente ficaria ele ou qualquer um dos seus bem quistos enquanto ele estivesse protegido sozinho com seu segredo? Em quais riscos ele estaria colocando seus queridos com seu silêncio omissivo?
Foram-se mais dois dias resguardados antes que algo na mente do enfermo se tornasse irreversivelmente descontente com a languidez da sua vida. Depois de mais uma noite sem sono, aos primeiros raios da manhã, Marcos fez sua omelete e tomou um suco de acerola. Seu pai, vendo o filho de pé e cozinhando, lhe deu um abraço caloroso e se retirou discretamente para o quarto de onde viera, onde ajoelhou-se e agradeceu aos seus santos pela reanimação gradual do seu amado filho mais novo. Depois de acompanhar o filho num silencioso café da manhã, o pai se arruma e se retira para a igreja.
A tarde toda Marcos passa separando as coisas que vão na sua bolsa de carteiro, daquelas espaçosas que ficam penduradas ao lado do corpo: quatro cabeças de alho, uma estaca mal-entalhada, e um ramo de arruda. Um rosário de contas vermelhas vai enrolado na sua mão direita. Se pudesse alguém perguntar ao homem taciturno de curtos cabelos ondulados sobre sua intenção com aqueles objetos, ele não teria certeza, pois cravar uma estaca no peito do belo Ulisses não lhe parecia muito apelativo. Sabia aonde ir com tudo aquilo, mas não o que fazer ao chegar lá. Na pior das hipóteses, se satisfaria em deixar que o monstro disfarçado de seu amigo terminasse de uma vez com seu trabalho sinistro, não lhe consumindo mais só a mente, mas também o corpo. Como conhece bem os riscos de esperar sempre o pior, Marcos protege-se dos pés à cabeça com orações temerosas.
Quando saiu de casa, o sol fazia o caminho para se pôr. Os céus ainda não estavam tingidos de laranja, e a vida na cidade se retraía num idílico descanso da tarde. Os que reconheciam o professor expressaram sua admiração em vê-lo entre os vivos novamente, ainda que seu olhar continuasse vago e distante. Nenhum dos curiosos conseguiu detê-lo por muito tempo e o mestre seguiu a passos atarantados na direção daquela estrada no meio do mato, afastada e pontilhada de ruínas do período colonial, onde encontraria a casa que só ele parece saber ao certo como encontrar. Uma construção de dois andares, um térreo e um primeiro, se destacava por ser um pouco melhor mantida do que aquelas que a cercavam. Apesar das trepadeiras se agarrarem às paredes da casa por todos os lados, a ação do musgo e da água parada parecia ter sido mitigada propositalmente, e as paredes não apresentavam buracos que não tivessem remendos de tábua e prego sobre eles. O emaranhado de fios que coroa o único poste funcional naquela ex-rua indicava uma adaptação para uso de eletricidade naquele cantinho ermo. Enquanto vinha pelas ruas centrais da cidade até aqui era óbvio quais curvas tomar para chegar ao casarão, mas agora Marcos não tinha mais certeza de como chegara, nem de como voltaria. Agora, de frente para a alta porta de madeira, nada do que o professor planejou fazer parecia ter muito sentido. Havia em algum momento um plano de verdade?
A cor do céu já havia se transformado num laranja arroxeado sem que o professor o visse. A lua já se fazia visível no lado oposto ao do sol, anunciando o momento propício. Puxando a estaca mal-entalhada da bolsa com a mão esquerda trêmula, Marcos usa a mão que segura o rosário para bater na porta.
Sem resposta, ele bate outra vez.
Antes da terceira vez ele tenta a maçaneta, que cede com uma frouxa facilidade e abre a porta de dobradiças barulhentas pela qual ele passa sem fechar. A porta dá numa espaçosa sala de estar, iluminada sutilmente por uns poucos abajures distribuídos em pontos estratégicos. Pelas janelas, entram apenas os últimos raios do dia desvanecente. A mobília no interior é organizada cuidadosamente e o chão é mantido limpo, apesar dos papéis rabiscados que se encontram espalhados. Adentrando a casa cautelosamente, estaca na mão, Marcos procura com olhos nervosos o bicho lá escondido. Vendo que fera nenhuma salta pra cima de seu pescoço nem rasteja nas sombras noturnas, ele segue procurando pelo que ele queria que ainda fosse seu amigo. Ao respirar, um cheiro azedo vem de algum lugar que não pode ver.
Mantendo-se próximo da luz dos abajures enquanto explora, Marcos preenche as lacunas deixadas pelas trevas com suas próprias memórias das paredes do casarão. Ao chegar com o pai para morar em Triunfo, dois anos atrás, Marcos explorava sozinho a floresta ao redor da cidade, e a casa parecia mais uma das ruínas escuras e vazias esquecidas na mata. Na noite de Carnaval em que Ulisses, depois de algumas cervejas e conversas divertidas, pegou-lhe pelo braço e o conduziu ao que ele chamou não de ruína, mas de seu estúdio de arte secreto, Marcos sentiu-se especial. Um santuário na floresta parecia revelado só pra ele. Custava ao professor acreditar que estivesse agora no mesmo casarão. Na sala de estar alguns móveis velhos se espremem entre as sombras, canetas e papéis rabiscados enfeitam o chão. A sala de jantar é organizada mais como uma extensão da sala de estar, com seus pufes espalhados e os quadros em vibrantes cores nas paredes, todas tomadas pelo tom amarelado dos abajures. Da cozinha emana alguma luz branca e aquele cheiro incômodo que logo se destaca, sendo que o resto da casa cheira apenas a poeira e abafado. Apreensivo, Marcos caminha pelas trevas até a cozinha, parando ainda na entrada. Comparada aos outros cômodos, a cozinha não era ocupada pela profusão de papel e tinta, parecendo até pouco tocada. A paz letárgica do lugar é rompida apenas por uma geladeira enfeitada com muitos ímãs, mantida entreaberta por um objeto que lhe escapa do interior. A luz branca de seu interior substitui em seu pequeno alcance a luz amarela que cobre todo o resto. Dela também vem o odor acre que se intromete na percepção olfativa estagnada oferecida por tudo em volta. O professor decide por abrir a indecisa geladeira, mas se detém ao entender de verdade o que ele vê. No canto inferior da porta entreaberta, uma forma inerte se estica, rígida e pendente ao mesmo tempo. O aspecto diabolicamente seco do que certamente já foi uma mão, agora atrofiada, com a pele parecendo apertada ao seu redor como um fragmento de um sonho macabro, denunciando exatamente o que existe dentro daquele caixão gelado. Virando-se na direção da porta principal, não há mais luz vindo pela entrada.
Parado em frente à porta, iluminado pelos intrusos raios lunares que destacam seus cabelos cheios e suas orelhas que agora parecem pontudas demais está Ulisses. Seu sorriso de dentes escondidos tenta passar uma aparência de relaxamento, mas seus olhos desviam ligeiro para qualquer canto que não tenha um pedaço de Marcos para ser visto. O professor hesita por um segundo antes de virar completamente o seu corpo para encarar o vampiro, estaca em punho e reza na mente.
– Marcos — inicia o vampiro, com um cuidado acuado na sua voz — Não te vejo faz alguns dias…
Os olhos do mestre se mantém firmes nos do vampiro, que não o encara de volta. Seu corpo gela e treme, mas ele mantém-se resoluto e passa a segurar a estaca com as duas mãos trêmulas. O terror que percorre todo seu corpo agarra mais forte a sua garganta e todas suas perguntas são encurraladas dentro da sua boca.
– Você me viu, não foi? Naquele outro dia. — Ulisses levanta os olhos envergonhados para encontrar os do outro. A mão em volta da estaca se fecha com mais força. — Me desculpa, eu devia ter tomado mais cuidado, sabe…– As palavras irritam profundamente o mestre. Não há desculpa que absolva o crime de ser um demônio. Encontrando as forças para romper com o pavor generalizado que o paralisa, Marcos responde baixinho e firme — Eu vi sim.
Ulisses dá um passo adiante e Marcos dá um passo para trás. — Eu realmente não quero machucar você. — Os braços que seguram a estaca tencionam. Já é tarde demais para repensar qualquer coisa. Há um homem e um demônio dentro da casa e só um dos dois poderia sair com vida. Quando o bicho tenta mostrar uma tentativa de sorriso indulgente, seus incisivos desumanos aparecem por trás dos lábios. O sinal está dado. Com um impulso, Marcos avança. Seus membros vacilam e a estaca que deveria perfurar o coração da besta acerta-a na barriga e quebra no meio antes de poder ser enterrada ṕor completo, o que tira dela um grito estridente como o de um grande morcego. Ulisses empurra Marcos rapidamente e cambaleia para trás com as mãos sobre a meia estaca que escorrega para fora de seu corpo deixando para trás suas farpas ensanguentadas. Atônito Marcos observa enquanto seu amigo se contorce e sangra pela barriga, apoiando-se de pé contra a parede com uma expressão de dor e de decepção profunda no rosto. Despertando do transe do pavor, Marcos deixa tombar sua parte da meia-estaca e cai de joelhos num choro desesperado, pronunciando entre soluços palavras ininteligíveis de penitência e medo. Se o que matou foi amigo ou foi besta-fera não parecia mais tão claro, e se a besta não o matasse em retaliação, o amigo lhe pesaria os pensamentos para sempre. Mas ao invés de morrer, o bicho atordoado, balançando de um lado para o outro, passa direto pelo professor e entra na cozinha. Quando ouve uma gaveta se abrir e fechar, Marcos vira-se, ainda com lágrimas nos olhos, e vê o vampiro trêmulo enrolar apressado uma faixa longa de gaze em torno de seu corpo ferido, lançando para o mestre um olhar traído, cheio de ressentimento. Feito o curativo, Ulisses ajoelha-se cuidadoso, cheio de dores, em frente a Marcos. Os olhos do professor, ainda que continuem cheios de medo, não têm mais o aspecto vidrado e vazio de antes; por sua vez, os olhos de Ulisses assumem uma dureza que destoa da maciez de seu rosto. — Você não deveria ter feito isso. — ele diz.
Marcos não responde. A mão que segura o rosário se afrouxa e deixa o instrumento sagrado pendurado pelos fios de contas em seus dedos.
– Vai embora, Marcos. Não me procure outra vez.
O senhor pai de Marcos estava acordado quando o filho chegou no meio da madrugada com o rosto marcado por gordas lágrimas, uma bolsa sobre o ombro direito, sangue e farpas na mão esquerda. Ele abraçou o pai com força, tomou seu banho e foi dormir, sem dizer uma palavra.
Na noite seguinte encontraram um corpo retorcido perto da igreja, com furos perturbadores no pescoço. A notícia se espalhou como fogo e logo houve quem o reconhecesse como o bicheiro desaparecido. Com isso, a barreira entre os sonhos inquietantes e a realidade de Marcos se restabeleceu e ele voltou a dormir. Sua vida desperta, por outro lado, é assombrada por um remorso do qual ele nunca saberá como se desvencilhar.